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PAREDÃO VACA PRETA

Data Ocorrência — 01/01/1993
Escalada Petrópolis — Rio de Janeiro Subindo

Local do Acidente

Pedra Roxa
Petrópolis
Rio de Janeiro

Contexto da Atividade

Escalada
Subindo
Rocha
Sol
Temperatura amena (15–25 °C)

Causas e Fatores Contribuintes

Queda / Escorregão
Sim
Sem capacete Equip. inadequado Segurança inadequada Erro de orientação

Envolvidos

1
Adulto (26–35 anos)
Masculino
Grupo pequeno
Parcial
Nao
Avançado (>3 anos)

Consequências

Sim
Sim
Escoriações Laceração Fratura queimadura

Resposta e Resgate

Sim
Companheiros
Não

Relato Detalhado

Relato de Paulo Jorge Moreira "Mariola" (vítima) No dia do acidente, eu estava escalando com a bota do Renato, pois saímos na correria e esqueci minha bota em casa. Eu tinha uma Ás na época e, para escalar com a bota do Renato, precisava bater a ponta do pé até a ponta da bota para conseguir realizar os lances. Na queda, justamente por causa da bota, ela escorregou. Fui convidado para dar a classificação da via — avaliar se a graduação deveria aumentar ou diminuir. Já estava no costão, havia passado dos níveis de dificuldade, quando uma agarra soltou da minha mão. Ela parecia virgem. Apoiei meu corpo nessa agarra, com a mão toda, e puxei. Nisso, a agarra soltou e quebrou. Até hoje há pedra solta no local. A bota não aderiu justamente no costão, e desci escorregando. O Renato estava me dando segurança de ombro, técnica bastante utilizada na época. Quando caí, ele me travou com a segurança de ombro, e o impacto deixou uma canaleta marcada em suas costas. Foi forte — para mim, ele foi o meu herói. Na queda, depois de bater na parede, em queda livre, passei pelo Renato e pelo Jeferson e, em seguida, bati na parede, ralando o rosto do lado direito, com arranhaduras. Meu peito também ficou todo ralado, assim como as pernas e as coxas. Minha roupa — a calça legging, que usávamos na época — teve que ser rasgada para poder limpar os ferimentos. Passaram iodo no peito, no rosto e nas pernas. Isso ocorreu depois do resgate, no Hospital Alcides Carneiro. Não lembro exatamente do horário. Morava no Siméria; foram me buscar por volta das 7h30 às 8h, e chegamos ao local por volta das 9h para encordar todo o lance. Eu fui guiando para relatar o nível e o grau de dificuldade da via. Não esqueço da queda. Foram frações de segundos. Gritei "vaca, vaca, vaca", tentando me segurar, arranhando a rocha como um gato. A marca do dedo e da unha ficou na pedra — quando voltei a escalar, ainda estava lá. Mas, infelizmente, não segurou: a bota não aderiu e eu tive que descer. Naquela época não usávamos capacete — seguíamos essa linhagem, sem capacete e com segurança de ombro. Não sei quando entrou o aparelho oito, o Magnone e outros esquemas de segurança UIAA. O Renato usava o UIAA, e eu escalava com ele. Lesões: Fratura interna no pulso esquerdo (que rachou) e na tíbia, o que exigiu engessar o braço esquerdo. Na época, eu tinha entre 27 e 28 anos. Na perna esquerda, fratura na falange do dedo menor e também no osso da parte de cima do pé, o que exigiu engessar a perna inteira, até acima do joelho. Queriam engessar também a perna direita, mas não foi preciso. Relato de Renato Walter Mattos (participante) Se não me engano, uma semana antes do acidente, eu e o Jeferson estivemos naquela parede trabalhando na conquista da via. Naquele dia, fizemos o primeiro e o segundo esticões. O segundo esticão começava com uma pequena barriga logo na saída. Não chegava a ser um negativo, mas era um lance próximo dos 90 graus, e acho que era o crux da via. O Jeferson passou esse trecho e bateu um grampo. Naquela época, a gente não tinha muito material, e ele acabou dando um esticão grande, até a inclinação diminuir e chegar a uma posição confortável. Ali, bateu outro grampo. Combinamos de voltar na semana seguinte para colocar dois grampos intermediários, sendo um no trecho mais abaixo, que eu havia conquistado, e outro no lance conquistado pelo Jeferson. Chamamos o Paulo para ir conosco e ajudar na graduação da via. Ele não gostava muito de conquistar, mas adorava escalar. Pelo que me lembro, a via estava ficando por volta do quinto grau, e o Mariola já escalava o sétimo com facilidade. Fizemos o primeiro esticão e paramos na primeira parada, que acho que era dupla. O Jeferson desceu um pouco para bater o grampo intermediário no trecho que eu havia conquistado, e o Mariola seguiu para fazer o lance seguinte. Ele passou pelo crux sem dificuldade. Eu estava fazendo a segurança de ombro, porque ainda estávamos no final daquela fase de transição para os equipamentos de segurança. Na época, ainda existia a ideia de que a segurança de ombro era mais eficiente, pois permitia recolher a corda com mais rapidez e diminuir a queda. Depois daquele acidente, abandonei completamente essa ideia. Eu ainda não conhecia o trecho acima do crux. O Jeferson explicou ao Mariola que, mais acima, ele encontraria um pequeno costão e um buraco com uma pega muito boa. Depois, o próprio Mariola nos contou que se lembrava da indicação de que havia uma agarra boa, mas não prestou atenção de que, na verdade, era um buraco. Quando chegou ali, segurou uma agarra que estava solta e fez o movimento para alcançar a solteira e se prender ao grampo. Foi nessa hora que a agarra se desprendeu, e ele caiu junto com ela. Foi uma queda muito grande, de 38 metros. Não dava para ver o que ele estava fazendo, pois o segundo esticão já começa com a tal "barriga". O Paulo se machucou bastante, e eu também fiquei machucado com o impacto da queda. A sorte foi o Jeferson estar conosco. Ele passou um prussik na corda, e assim eu consegui soltar a segurança de ombro. Como estava machucado e com pouca mobilidade, eu já tinha dificuldade até para manter a corda travada. Depois, conseguimos nos organizar, rapelamos e levamos o Paulo nos ombros até o carro. De lá, seguimos para o Hospital Alcides Carneiro. Relato de Jeferson Costa Conquistei um lance de 20 metros no sábado. No domingo, o Mariola entrou guiando. E, no final desse lance de 20 metros, faltando 1 metro para chegar à chapeleta, havia dois buracos para se colocar a mão. Entretanto, Mariola puxou uma agarra solta. Caiu 38 metros.

Sugestões de Prevenção

A análise do acidente no Vaca Preta revela uma combinação de fatores que, isoladamente, já representariam risco, mas que somados resultaram em uma queda de 38 metros com sérios danos. O primeiro e mais evidente deles foi o uso de equipamento inadequado: o Paulo escalou com uma bota emprestada, de tamanho errado, que exigia bater a ponta do pé até a ponta do calçado para realizar os lances, e que não ofereceu aderência no costão no momento crítico da queda. Isso reforça que o calçado é item de segurança fundamental e deve ser sempre próprio, do tamanho correto e em bom estado de conservação, o que se resolve com um simples checklist de saída para evitar esquecimentos em saídas apressadas. O segundo fator foi a proteção incompleta da via, que ainda estava em fase de conquista. Os grampos intermediários ainda não haviam sido instalados, o que aumentou consideravelmente a distância da queda. Em vias em conquista, é essencial não escalar trechos sem proteção adequada, costurar todos os grampos disponíveis e usar proteção provisória, como fitas, friends e nuts, nos trechos ainda não equipados, se possível. O terceiro ponto diz respeito à modernização da segurança. Na época, apesar de já existentes diversos equipamentos e técnicas de segurança (Freio Oito, ATC, nó UIAA...), ainda se usava a segurança de ombro - técnica que o próprio Renato abandonou completamente após o acidente, e não se usava capacete - o que deixou o rosto e a cabeça expostos ao impacto contra a parede. Equipamentos modernos, além do capacete, são itens inegociáveis e devem substituir técnicas ultrapassadas, com revisão periódica das práticas conforme a evolução do material. O quarto fator foi o risco geológico. O Paulo apoiou todo o peso do corpo em uma agarra que parecia virgem e que se desprendeu, quebrando e deixando pedra solta no local. Em vias recém-conquistadas, agarras suspeitas devem ser testadas com cuidado antes de receber todo o peso, e trechos com pedra solta devem ser limpos ou sinalizados para alertar futuros escaladores. Por fim, houve uma falha de comunicação e/ou de orientação, que contribuiu diretamente para o acidente. Isso demonstra a importância de um briefing claro antes de cada lance, com confirmação de que o escalador entendeu as orientações sobre pegas, buracos, proteções e trechos de risco, além de comandos bem definidos entre escalador e segurador. Somado a tudo isso, ter um kit de primeiros socorros acessível, saber usá-lo e contar com meios de comunicação para acionar socorro rapidamente são medidas que fazem diferença real no desfecho de um acidente. Em resumo, a prevenção passa por equipamento próprio e em bom estado, proteção completa, segurança moderna com capacete, avaliação cuidadosa do risco geológico, comunicação clara entre a cordada e um plano de resgate preparado com antecedência.

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